terça-feira, dezembro 18

Ser velho

... sente-se o tempo passar. Somos jovens, jovens adultos, adultos apenas... talvez crianças. Pensamos no futuro, naquele que está próximo, demasiado próximo. Aquele que vai ditar quem somos, como nos definimos... Aquele onde encabeçamos uma profissão e dela sustentamos a vida. Sim, esse futuro. E depois? Depois... minguamos, seremos os velhos enrugados. Perderemos o norte, sem esperança de o recuperar, de voltar a vangloria da vida antiga, exasperantemente fugaz parecer-nos-á.

Hoje olhamos os velhos com desdém. Sujos, refilões, falam de mais e do passado, maçadores, senis. Mas nós seremos esses velhos e esses velhos já foram tu e eu. Esses velhos foram alguém, insignificante eventualmente, mas foram-no. Foram um alguém por onde a vida correu alegremente pelas veias... mas que se evaporou pelos poros. Porque não respeitamos nós, hoje, pelo menos esse alguém que seremos?
" "A velhice é humilhante?"
"Não a velhice em si, mas o facto de perdermos faculdades e ficarmos inteiramente à mercê dos outros, está a perceber?" Fez um gesto com a cabeça para os idosos sentados em silêncio à mesa. "O que acha o senhor que é a velhice extrema? Imagine-se a si, um homem seguro, bem-parecido, independente, que sempre soube cuidar das suas coisas. Imagine que de repente deixa de conseguir andar e que por isso não pode ir de meia em meia hora ao quarto de banho. O que lhe acontece?"
"Alguém me leva ao quarto de banho, suponho."
"Oiça, um empregado é capaz de lhe fazer isso uma, duas, três vezes, não digo que não. Mas, se pedir ao empregado que lhe faça isso umas vinte vezes por dia, todos os dias, semana após semana, mês após mês, e houver mais dez velhos a pedirem a mesma coisa e o empregado cheio de tarefas para executar em pouco tempo, sabe o que acontece, sabe?" Deixou a pergunta a flutuar. "Põem-lhe uma fralda. E ali está você, que ao longo de toda a vida foi dono de si, sentado no sofá a urinar para as fraldas. E isto para o resto da sua vida, sem perspectiva de regressar à autonomia anterior. Como é que se sentirá quando isso acontecer?"
"Uh... bem..."
"Humilhado. Sentir-se-á humilhado. E quando tiver de defecar, o que vai fazer? Irá defecar nas fraldas. Depois virá o empregado tirar-lhe as fraldas e limpar-lhe o rabo. Como se sentirá você? Humilhado. E quando já nem conseguir segurar bem na colher, porque a mão lhe treme toda e você, por mais que tente, não a consegue controlar? Põem-lhe um babete no peito e dão-lhe a sopa à boca. E você, que durante toda a vida foi senhor de si, homem independente, um ser humano autónomo e orgulhoso, como se sente?"
"Humilhado", assentiu ele, baixando a cabeça.
Maria Flor mirou a mesa onde decorria o almoço silencioso.
"É assim que eles se sentem." "

in "O Sétimo Selo", de José Rodrigues dos Santos

Nota introdutória




Não importa quem sou ou no que me tornarei...
Aqui vou deixar-me e é tudo o que precisas.
Pergunta-te se gostares, ignora-me se não...
Tudo o resto não passam de palavras, e incomodares-te é em vão.